A tua vida em meu olhar

O projeto do 7º ano “O que pode um corpo?” ganhou diferentes articulações entre os componentes curriculares, ao longo do segundo trimestre. A potência dos mais diferentes corpos foi o que motivou os estudantes a observarem como o corpo pode constituir-se, subjetivamente, pela linguagem, em sua multiplicidade.

Especificamente, nos componentes curriculares de Língua Portuguesa e História, os estudantes foram convidados a realizar a sua própria produção — projeto escritural e fotográfico intitulado “A tua vida em meu olhar”. Inspirados e provocados pelas crônicas da jornalista e escritora Eliane Brum, na obra “A vida que ninguém vê”, e como culminância do processo educativo interdisciplinar, os estudantes entrevistaram e fotografaram funcionários do João XXIII, das mais diversas áreas. Se a ideia era pensar sobre a potência de corpos que pouco percebemos ou que são parte essencial de nossa vida cotidiana, por que não voltarmos nossos olhos para nosso ambiente escolar?

A curiosidade dos estudantes sobre essas outras vidas envolveu desde questões profissionais (tempo de serviço na instituição, suas principais tarefas), como questionamentos mais pessoais e profundos (os maiores sonhos, a vida em família, os amigos que fez no trabalho, o lazer, momentos difíceis). Após a conversa com os funcionários, cada grupo iniciou a escrita da crônica. Uma mistura de fatos relatados, com pitadas de ficção compôs um conjunto de vinte e cinco textos.

Como as produções foram feitas a partir da vida de funcionários da escola, uma etapa importante  consistiu na devolução do trabalho à comunidade escolar. Neste sentido, os trabalhos foram expostos na Mostra Cultural, que aconteceu no dia 10 de novembro e recebeu a visita de estudantes, pais, professores e dos próprios protagonistas que tiveram suas vidas narradas pelo olhar dos estudantes.


 

A VIDA EM UMA BIBLIOTECA

Por Gabriela Scalco, Júlia Aguiar e Sofia Ferreira – 7A

 

A VIDA EM UMA BIBLIOTECA            Uma mulher leitora, que trabalha no lugar mais bonito do nosso Colégio há quase 6 anos. Começou a trabalhar com 16 anos, logo após passar por problemas financeiros ou é assim que preferimos imaginar. Eliane é calma, educada e tem muita vontade de ler e aprender mais. A biblioteca é o lugar onde ela tem o prazer de ir trabalhar todos os dias.

O que ela mais gosta de fazer durante o trabalho é influenciar os alunos a terem outros olhos para a leitura. Neste exato momento, ela pode estar mostrando um livro para algum aluno da escola. Também gosta de receber livros novos e adora interagir com os professores e funcionários da escola. E diz que os alunos são educados e muito pacientes.

Essa paixão por leitura começou quando tinha 4 anos. Tinha muitos livros em casa, como se fosse uma “biblioteca”. Os pais gostavam muito de ler, então a mãe influenciou-a a entrar neste mundo da leitura. A primeira palavra que aprendeu a ler foi “macaco”, ela ficou muito feliz em conseguir compreender o que estava escrito e nunca mais parou de ler; o último livro que a marcou foi “O Senhor das Moscas”, de William Golding.

No seu tempo livre, Eliane lê, anda de bicicleta, come, cozinha, descansa… Uma coisa que ela quer muito é estudar mais, para que possa entender mais sobre o mundo. Sobre a sua própria personalidade, ela diz que a sua melhor qualidade é a alegria.

Amizades para ela são pessoas em que ela pode confiar quando não está bem. No Colégio, Eliane considera alguns de seus colegas de trabalho como amigos.

Quando perguntamos para Eliane se o mundo é bom, ela nos surpreendeu com uma resposta não esperada, mas concordamos: “Naturalmente é um lugar bom, mas o ser humano não sabe aproveitar”. Ela enxerga o Brasil como um país explorado pelo resto do mundo, poderia ser um lugar melhor, mas os políticos não nos ajudam; e que toda essa “máquina” política tem que melhorar, esse conjunto não está ajudando o povo.

A parte mais chata da vida para Eliane é o capitalismo, a necessidade de comprar, e a publicidade que nos tira a energia para olhar a vida. Ano que vem ela espera que a situação política do Brasil melhore e que as pessoas sejam mais pacientes com o mundo.


 

CARISMA, BIGODE E ROCK’N ROLL

Por Bruno Vernonez, Lucas Leite de Castro e Leifr Harry Subtil – 7E

 

CARISMA, BIGODE E ROCK'N ROLL

Sempre com um sorriso estampado no rosto, Gustavo trabalha como guarda no Colégio João XXIII. Apesar de ter seu emprego, sua mente ainda está presa na música, e às lembranças da banda que já participou. A música é o motor da sua vida. Em 2019, Gustavo espera cursar música. Teria Gustavo vontade de reunir a banda? Ou gostaria de seguir seu rumo sozinho?

Ao encontrarmos Gustavo, para a entrevista, ele estava jogando xadrez sozinho, e quando nos apresentamos, ele sorriu, e largou seu jogo. Enquanto o entrevistávamos, ele não olhou fixamente nos nossos olhos o tempo todo, e demonstrou estar ocupado com algo. Estaria Gustavo ocupado ou desconfortável? Seria seu trabalho tão pesado quanto o rock que tocava?

Gustavo é um cara engraçado, extrovertido e carismático, mas ao tentarmos falar de sua vida pessoal mais a fundo, ele não se aprofundou muito. Mesmo assim, nos olhares, nos gestos, e na foto de fundo do seu celular (estampando ele e uma mulher) vimos como era sua vida pessoal, sem muitos detalhes. Seria ela sua família? Sua esposa ou sua namorada?

Ao falarmos de sua infância, ele não especificou muito, deixando em aberto algumas coisas. Falou que sua infância foi boa, e que nela guarda muitas memórias, mas não falou quais. Seriam elas tão pessoais que impossíveis de nos contar? Mesmo assim suas atitudes foram revelando aos poucos como aconteceu. Em seu olhar vimos sentimentos de nostalgia ao lembrar de quando criança, talvez ele sentiu saudade de seus pais… Teriam eles se separado? Morrido? Ou ele ainda tinha contato com eles?

Depois de falarmos de sua infância, perguntamos de como foi a sua juventude, e sua trajetória até o Colégio onde trabalha. Ele nos contou então que começou a fazer estágio aos 15 anos de idade, como officeboy, mas não contou o que fazia, especificamente. Seria ele de origem humilde? Será que passou necessidade?

O tempo passou, trabalhou como vigilante e seu colega de setor o indicou um lugar melhor, onde ele poderia conseguir a vaga. Por acaso este local era o João XXIII. Essa história aconteceu há um ano, e desde então ele repete sua rotina, cuidando da segurança dos alunos e professores. Mas mesmo assim, seu amor pela música permanece. O dever e a melodia lutam por espaço em sua mente e coração. Há coisas na vida que nunca abandonamos, no caso de Gustavo é sua guitarra.


 

JOCELI ENTRE MEMÓRIAS

Por Letícia Becker, Laura Hagemann, Isabela Becker – 7E

 

JOCELI ENTRE MEMÓRIASJoceli Andrade tem quarenta e cinco anos e trabalha no colégio João XXIII. Há cinco anos, trabalha entre panos e vassouras, enquanto pequenas crianças percorrem a sala. Sua vida foi marcada pelos dois filhos, que cuida sozinha. Teriam eles um pai? Quem seria esse pai? O que teria acontecido com ele? Fugido? Morrido? Os visitaria no final de semana? Joceli esboça um sorriso ao mencionar os filhos, mas logo desaparece ao mencionarmos casamento.

O que teria levado Joceli a trabalhar nesta escola? Opção ou sonho? Ou salvação? O que a salva há cinco anos? O que realiza há cinco anos? Cinco anos é um número grande demais para fazer algo que não ame. Ela disse que o trabalho mudou sua vida financeiramente, o que está certo, afinal, qual seria o propósito do trabalho se não ganhar dinheiro? Num mundo onde a única diferença entre o homem e a máquina é o sangue, o dinheiro se tornou necessário para a sobrevivência. A culpa não é de Joceli de ter se rendido ao sistema capitalista.

Mesmo se não gostasse do trabalho, o que poderia fazer? Então ela continua aqui, limpando classes e aspirando carpetes, conhecendo pessoas e fazendo parcerias. Isso mesmo, parcerias. Joceli acha a amizade algo complexo demais para ser resumida em poucas falas e apertos de mão.

A opinião de Joceli sobre amizade logo cativou nosso interesse, fazendo-nos perguntar mais. “Amigo é uma pessoa companheira, que possa te ouvir, se comunicar por mais longe que estiver”, esse é o pensamento de Joceli. O que teria levado ela a pensar assim? Decepções? Quem seriam seus parceiros? E quem seriam seus amigos? Realmente, amizade é algo complicado demais em relação à forma como tratamos hoje em dia. Num mundo cego, talvez Joceli seja um dos poucos que tirou a venda.

Mas, com as palavras de Joceli, ficamos pensando: o que é amizade? Alguns dizem que amigo é aquele que fala a mesma linguagem que você, outros acham que é uma coisa preciosa. Uns pensam que amigo é com quem você compartilha seus segredos, e outros pensam que é com quem você não tem vergonha de ser quem é. Com opiniões tão distintas, quem estaria certo? Joceli? Seu vizinho? Teria alguém certo?

Joceli nos deu uma chave, que está abrindo portas para nossa reflexão. Ela parece um quebra-cabeça que ainda estamos juntando as peças para decifrar.


 

O PANDEIRISTA

Por Arthur Klein, Maitê Campos e Maria Eduarda Fontoura – 7C

 

O PANDEIRISTA         Salgadeiro e pizzaiolo, pandeirista nas horas vagas. Mas sabe o que ele realmente faz? Trabalha fazendo serviços gerais. Há seis meses começou a trabalhar no João XXIII, pois não aguentava mais estar desempregado. E o mercado de trabalho? Tá horrível. Desde sempre apaixonado por música. Quando sobra um tempo, toca um pandeiro nos barzinhos da cidade. Os dotes culinários, herdou de sua mãe, que desde pequeno, fazia a tradicional pizza da família. Queria mesmo era ter uma pizzaria ou uma padaria, para poder passar suas habilidades ao seu filho. Pelo menos é assim que decidimos imaginar. Talvez seja mesmo, talvez não, isso é você que decide.

Nascido em Porto Alegre, Adam Jonathas é um homem quieto, muito simpático. Nos recepcionou durante seu almoço, estava comendo uma marmita, provavelmente feita por ele. Ou não? Quem poderia ter feito para ele? Estava comendo salpicão e feijão.

Entre muitos sonhos, ele escolheu um para nos contar: seu sonho de conhecer a cidade maravilhosa, o Rio. Mas o motivo você terá que imaginar sozinho. Provavelmente seja por causa do Carnaval, que é uma festa muito musical.

Aqui no colégio construiu muitas amizades, seu Jorge foi uma delas.

Provavelmente você nunca ouviu falar sobre ele, mas deveria, porque mesmo sem conhecê-lo, ele já fez muita coisa por você. Sem ele não teria descarga funcionando, ar-condicionado bom, árvores bonitas, casinhas na árvore e sem isso a escola não seria a mesma. As ações de Adam nos ensinam a dar valor às pessoas que estão ao nosso redor, nossos amigos, nossa família, pois elas fazem toda a diferença.


 

SONHOS COLORIDOS

Por Mariana Leão, Manuela Fontana e Vitória de Castro – 7E

 

SONHOS COLORIDOSSeu Jorge é um homem negro. Tem 68 anos e trabalha há 14 anos no colégio João XXIII.

Desde sempre foi uma pessoa divertida, extrovertida, engraçada e que vê a vida de uma maneira diferente, colorida, levando muitas coisas na brincadeira. Mas essa vida colorida pode, de repente, se tornar preta e branca, com seu sonho que não pode ser realizado, um sonho que não é de agora, já é de muito tempo atrás: o desejo de ser branco. Seu Jorge tem esperança de tornar o mundo colorido, como ele fez com a nossa escola, mas acha que, sendo como é, não conseguirá atingir seu objetivo.

Ele gostaria de voltar aos seus 14 anos. Mas por que essa época é tão importante? Talvez por não ter tantas responsabilidades ou obrigações? Ou para relembrar antigas amizades? Será que ele era mais próximo de sua família? Mas pelo que Seu Jorge nos disse, ainda mantém contato com seus parentes. Então, por que ao pensar em um momento importante de sua vida, não mencionou a sua família? E os seus filhos? Será um conflito do passado?

Com os olhos cheios de lágrimas, Seu Jorge nos contou que nunca teve a oportunidade de conhecer lugares fora do nosso país e que esse é um grande sonho dele. Um dos lugares que ele gostaria de conhecer é os Estados Unidos, lá tem uma das primaveras mais coloridas do mundo, e é o que o Seu Jorge mais sonha em conhecer.

Essa é a história de Seu Jorge, um homem trabalhador e que acorda todo dia com seu sorriso no rosto, alegrando todos a sua volta. Mas será que todos os seus sonhos algum dia se tornarão realidade? Será que ele conseguirá ter o que deseja? Só o futuro sabe o que lhe aguarda, de repente ele se torna um paisagista, seu emprego dos sonhos.


 

O IMAGINADOR

Por Cecília Martins, Isabela Siebert e Tiago Castellan – 7A

 

O IMAGINADORÉ, com 49 anos, ele trabalha há dois anos nesta escola. Seu nome? Delmar Flores. Sua vida foi difícil, não teve nada de mão beijada. Hoje tem dois filhos e trabalha aqui no João. Veio trabalhar aqui, pois estava desempregado e recebeu a indicação de um amigo.

Por conta de sua profissão, guarda do Colégio, sua imaginação é muito fértil, pois além de cuidar da vida das pessoas ele também as imagina. Pensa no que elas fizeram, deixaram de fazer ou vão fazer em um futuro próximo.

Um dia, em seu trabalho, uma menina passou por Delmar, com os olhos cheios de lágrimas. Delmar começou a imaginar o que havia acontecido com aquela menina, por que estava chorando? Ela poderia ter perdido um parente? Um amigo? Ou era só por causa de suas notas na escola? Delmar estava muito curioso para saber o que tinha acontecido com a menina, então começou a imaginar a sua vida.

Delmar imaginou a menina chegando em casa depois da escola, no dia anterior, sentando no sofá e esperando os pais para almoçar. Logo eles entram em casa, desesperados e tristes e dão a notícia de que a vó teve um ataque cardíaco e está na UTI do hospital. A menina começa a chorar e vai abraçar seus pais. Seus pais falam que eles devem ir pro hospital urgentemente, para visitar a sua avó. Vão até o hospital, quando chegam lá, veem os médicos correndo com uma maca. Seria a sua avó naquela maca? Delmar pensou melhor e chegou à conclusão de que se a avó tivesse no hospital, a menina não teria ido para a escola.

Então ele imaginou outra situação, que poderia ter acontecido na vida dela. Imaginou-a com suas amigas na aula de matemática, conversando. A aula começa e o professor escreve na rotina que, no final do período, ele entregaria as notas da prova que eles fizeram na semana passada. A menina ficou com medo de ver sua nota, pois achava que não tinha ido bem na prova. O período chegou ao fim e, junto com ele, vieram as notas da prova. A menina finalmente recebeu sua prova, havia tirado 0,4 de 1,5, ela ficou muito triste e começou a chorar.

Delmar cansou de tentar imaginar a vida dela e perguntou o que havia acontecido. Ele, então, falou com a menina e finalmente descobriu qual era o problema dela. Não era nada do que ele havia imaginado, seus pais estavam se separando. Ele ajudou-a, consolando, disse que era o melhor para seus pais, porque quando o amor acaba, não há mais o que fazer.

A partir daquele dia a menina sempre que passa por Delmar o cumprimenta. E conta como está sendo a experiência de ter os pais separados. Talvez Delmar não tenha dito isso, mas falar com ele também nos tornou imaginadores.

Todos os textos foram gentilmente ofertados ao Blog Conta, Zilah pelos autores. Escreveram sobre o projeto A tua vida em meu olhar as Professoras Raquel Leão Luz, Língua Portuguesa, e, Patrícia Dyonisio, História.

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