Freava os pés descalços no asfalto e seus buracos

Poemas de Clara Coelho [1]

Só chove!

Por medo do meu temporal,
guardei as palavras
chovendo em ensaios.
Ventava realidade.
Sem chances de um pôr do sol,
redigi nuvens carregadas.
Prenúncio de que água tarda mas não falha.
(Trans)lúcida fala.
Quando vem, lava.
Me escorro em alma,
na calma da escrita.
Agora só a chuva salva.


Menino
Eu vi um menino
O menino corria,
morro a baixo
freava os pés descalços no asfalto e seus buracos.

O menino olhava perdido,
suava e bufava.
Corpo franzino,
respirar não era possível.

O menino esquivo desaparecia.
Ali, na curva, eram ele e a lua.
Sirene, gritaria, latidos.
Um estampido que ofusca.
(A)bala
não era para ele.

Menino,
na camiseta jaz
escrito
PEACE

 


 

Quem foi?
Quem foi?
Tinha o sol que correr e se esconder,
desenhando em moldura teus rastros?
Fez da brincadeira um quadro.
E, em mim, o desejo de ter visto o autor no cenário.
É verdade: fugir é um dos grandes prazeres.
Melhor é quando sobes os degraus de volta e teu olhar diz que estás feliz.
Sorrindo com olhar, os dias a melhorar.

 


 

eco
São vidas que pulsam,
corpos que dançam,
balançam.
Emoções que transitam,
nos mil sons que nos habitam.
É quase tudo novo, de novo.
Eu, aqui, ecoo

 


Semente

E se soubéssemos esperar pelo germinar do outro?
Quem sabe se pudéssemos ser generosos com a Terra tal qual ela é conosco?
Amar sem medida as pedrinhas, os galhos e as folhas caídas…
Que tal, um dia qualquer, podermos ter os olhos a brilhar ao ver o florescer das crianças e dos ipês.
Celebrar outonos, adubar encontros.
Talvez trocando os tempos: amanhã eu fui…
Ciclos de vida, lições das crianças.
SER semente!

 


tempo
O tempo é o meu avô,
sentado na varanda,
tomando chimarrão
e contemplando (outra vez) a vida nascer.

 


(cria)nça

Faz da areia, teu castelo.
Reconstrói tua casa com panos e caixas.
Com papel, faz voar…
Navegar por perigosas aventuras.
Terás espadas, escudos e poderes inimagináveis.
Podes ser fada, bruxa, bombeiro, lixeiro, policial ou ladrão.
Quem sabe um filhote ou um bicho bem grandão?
Criar, reinventar…aprender,
cair e levantar.
Às vezes, chorar.
Só pelo aniversário esperar:
é tudo agora, é tudo aqui.
Um presente volátil, quem sente demora.
Quando vê, voou.
Sonhar com o crescer: “quero logo ser adulto para mais coisas fazer!”
Mal sabe ela a saudade que dá.

Vem a menina e me convida para brincar…

 


 

Chuva (II)

Palavra chove?
Só tempestade

 


Brisa de um instante

Esse é meu instante.
Instante de silêncio.
Janela aberta, mirando ao longe.
Realidade e fantasia.
Loucura e insensatez.
Sou o ontem e o hoje,
Mais um pouco é amanhã.
Misturada em devaneios
Cenários de viver.
Meu corpo e minha alma,
Às vezes, maltratada também sabe receber.
Difícil desistir, ousar e insistir
Num jogo de peças trocadas.
Fácil, estou errada

É o tempo que corre, me leva ao acaso.

Não gosto de atraso.

Correndo, chego antes.

A noite é um vento.

Eu olho para dentro.

Um turbilhão me carregando

Aí o que vem é a saudade

Do que a leveza me deixou.

Eu quero aquela calma.

Tranquilidade esperta

Que sabe o que espera

No caminho logo ali.

Se for me deixar ir:

Eu sei vai ser ruim

Mais para mim do que para ti.

Uma pausa de silêncio.

Uma brisa de verão.

O que eu trago aqui dentro já não tem mais vazão.

Espero o momento,

Fruindo criação.

Palavras lavrando sem nenhuma intenção.

 

[1] Clara Coelho é professora do maternal do Colégio João XXIII. A professor e escritora cedeu gentilmente essa seleção de poemas para publicação no Blog Conta, Zilah. Os poemas estão originalmente publicados no Blog da autora.

 

2 comentários em “Freava os pés descalços no asfalto e seus buracos

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  1. Obrigada pelo carinho e pelo espaço!!!! É muito bom compartilhar nossas coisas e ler colegas e estudantes. Parabéns pela iniciativa. 😗

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Professora, Clara. A Biblioteca e seus leitores te agradecem muito o carinho e os impactantes poemas!

      Curtir

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