Horizonte vertical

Casas; carros;

Prédios; ruas;

Figuras; frituras;

Faturas; loucuras

Que deixam o meu horizonte

Na vertical

E enquanto a vida passa por mim

Pergunto o que fez do mundo

Tão banal

 

Postes; pontes;

Favelas; avenidas;

Fetiches; feridas;

E a vida, perdida

Guardada numa caixa

Uma planta murcha e sem sol

 

E quando olho ao longe

Não consigo ver

O azul do céu é branco

Sem prazer

 

E a linha desse nosso mundo redondo

É cortada de cimento

Mil pessoas, sofrimento

E só vejo a mim

Talvez o nosso mundo funcione assim

Enquanto o dinheiro corre

Mais que as pessoas

Vemos o mundo em widescreen

E quando apaga, a tela é preta.

 

Enquanto as máquinas respiram

E as pessoas não

Tudo não passa de desilusão

A ilusão, contentação

 

Parece que tudo sempre foi assim

Só que existiu um mundo

Antes de Gates e Jobs

E antes mesmo de mim

 

E antes que acendêssemos as lâmpadas

Para apagar o Sol

E ante que fizéssemos de conta

Que somos o Sol

 

Mas eu não consigo ver

Ninguém consegue enxergar outra coisa

Porque nosso horizonte

É vertical

 

Quando vejo o mar

Me lembro do mundo que perdi

Não sei quando

Antes mesmo que nasci

 

E quando toco a areia

Que é chão de verdade

Sinto uma felicidade

Com meu horizonte azul

Que morreu no sul.

 

E do outro lado

O Sol se pões no Guaíba

Pra mim, pra você

Pra ninguém

 

Mas eu não consigo ver

Ninguém sabe enxergar outro eu

Porque o nosso horizonte

É vertical

 

Nenhuma estrela se vê

Nem um pássaro se vê

Queria cantar de amor por alguém

Mas seria para ninguém

 

Pouca esperança se vê

Poucas vezes, sem querer

Nossa própria companhia

Entedia, sem por que.

 

Tudo o que faço é um grande nada

Mas estou sempre ocupada

Arranjo coisas pra fazer

Pra não dizer que não estou

Sentindo nada

 

 

Deixamos sonhos na estrada

Sonhos de fadas e piratas

Nos preparamos para o vestibular,

Pra trabalhar, ganhar, gastar

E fazer nada.

 

Nos preparamos para o amanhã

Hoje nem mesmo vejo o Sol

E o horizonte, que ficou

Pra outro dia

 

Nos preparamos para o depois

Mas amanhã não tem mais mundo

O mundo acaba em nossos olhos

Nossas lágrimas, enfim

 

Nos preparamos para deixar dinheiro

Para nossos filhos fazerem o mesmo

Mas não deixamos céu azul

E grama verde pra pisar

E lembrar do horizonte

 

Mas eles não vão ver

Ninguém vai enxergar seus amores

Porque o nosso Horizonte

É vertical.

 

Texto da "Sociedade dos poetas vivos".

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