O saboroso perigo da leitura

Sobre “Frankenstein”, de Mary Shelley e “Um estudo em vermelho”, de Conan Doyle. 

Texto da Prof.ª Raquel Leão Luz. 

Gosto de pensar com a provocação de Lemony Snicket, na introdução do livro, “Os foras da lei barulhentos…” que “Sem coisas perigosas, as histórias tendem a ser chatas, palavra que aqui significa algo que você tenha que ler na escola”. Em geral, pensamos que histórias chatas são aquelas que, muitas vezes, nos obrigam a ler – e, certamente, ser obrigado a realizar uma leitura, não é lá algo que possa agradar a todos, não é mesmo? Muitas vezes ouvimos a obrigatoriedade da leitura na escola ser defendida a partir de argumentos como estes: “esse livro é muito importante para a história da literatura, por isso devemos ler” ou “esse livro é famoso, por isso devemos ler” ou “esse livro será importante no futuro, por isso devemos ler”. Mas na nossa escola isso é muito diferente! Nossa proposta, aqui, é romper com argumentos como esses e pensar a leitura de uma outra forma: ler, na escola, precisa ser mais perigoso, como diria Snicket. As histórias perigosas são, em geral, as mais atraentes e interessantes. Mas perigosas em que sentido?

As leituras podem até mesmo ser chamadas de “obrigatórias”, mas que esse adjetivo, que muitas vezes operou no campo semântico das histórias chatas, esteja caracterizando outros substantivos: riscos e perigos; incertezas e dúvidas, mais do que certezas; questionamentos, problematizações; descobertas, criações e incômodos – sim, porque ler, assistir a um filme, apreciar uma obra de arte, não necessariamente tem a ver com sentir-se confortável e apaziguado, certo? Fruir esteticamente é, também, sentir-se incomodado (de um jeito bom, que significa aquele incômodo que nos provoca a pensar).

Nesse sentido, a leitura que fazemos não tem a ver com o que é importante para a história da literatura, tão somente: mas sim com o que pode ser significativo do ponto de vista do projeto de pensamento que estamos realizando no trimestre. A leitura não será realizada, tampouco, seguindo o critério do que nos “prometem” sobre um livro. Mas menos ainda, não leremos um livro “para o futuro”. A leitura é hoje, é agora. Lemos para fazer coisas juntos, nos universos de que tomamos parte agora. Portanto, leitura não tem a ver com um “conhecimento” que um dia, só um dia chegará. Ela é nosso presente intenso, a ser construído com carinho e tranquilidade, cultivado pouco a pouco, com respeito às diferenças, no hoje.

A cada trimestre, portanto, vamos ler no sétimo ano um conjunto de obras que possam nos trazer alguns perigos, ou seja: possibilidades de pensarmos diferentemente do que pensávamos – cada um em seu processo pessoal e todos juntos, coletivamente.

Neste trimestre, as obras fascinantes e perigosas que farão parte de nossos dias de leitura, conversa, estudo e provocação são “Frankenstein”, de Mary Shelley e “Um estudo em vermelho”, de Conan Doyle. Nossa proposta é pensar o tema da alteridade a partir da leitura dessas obras. Ou seja: pensar como nos relacionamos com o outro – aquele que é radicalmente diferente de mim.

Com Frankenstein, estaremos diante de uma obra desafiadora, que em 2018 completa 200 anos de seu lançamento. A linguagem do século XIX está impregnada no livro, de modo que faremos um exercício de conhecer as palavras e os modos de dizer daquela época. Mas não só. Como linguagem implica, necessariamente, cultura, habitaremos o universo de personagens tão dramáticos e histéricos como Vítor Frankenstein. Ampliaremos a noção de “monstruosidade” e diferença, a partir da temível e sensível criatura, feita de restos de cadáveres. Pensaremos um pouco sobre o modo como as mulheres eram tratadas naquele momento. Adentraremos o coração do monstro e os perigos de uma história cheia de desdobramentos existenciais. Tudo isso pelo não tão silencioso trabalho das palavras. Ah! As palavras!

Sherlock Holmes era um mestre das palavras. De mãos dadas com Conan Doyle desbravaremos o mundo das inferências, deduções, induções. Nada passará despercebido nesta leitura: cada elemento é usado, rigorosamente, para a construção de uma trama policial, envolta em mistério, suspense e brilhantes exercícios de lógica de nosso querido investigador.

As duas obras, juntas, fazem parte do projeto temático da Feira do Livro deste ano – personagens literários tão inesquecíveis, que convivem no imaginário de uma sociedade. Convidamos a todos a embarcar nessa perigosa aventura de ensaiar com as palavras – as nossas, as de Mary Shelley, as de Conan Doyle, as palavras dos outros, que ainda estão por vir…


			

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