Meu livro sumiu!

O ar estava saturado com o cheiro do incêndio. Era um odor quente, sem a presença de chamas. Não lembrava nem de longe a fumacinha cálida das fogueiras ou o calor aconchegante do fogão das avós. Parecia um bafo de destruição.

Peter Pan, com sua curiosidade de eterna criança, foi o primeiro a romper o silêncio da multidão:

– O que será que estão queimando?

Lânguida, Madame Bovary sussurrou:

– Devem estar preparando uma pira para mim, pois dizem que eu preciso purgar meus pecados

– Por quê? – tornou Peter – O que foi que senhora fez?

Mal-humorado, Dom Casmurro interveio:

– Não importa o que ela fez. Precisamos saber a causa de estarmos todos aqui reunidos. Digam: por que estão aqui?

Em uníssono, como em um jogral ensaiado, vozes de homens, mulheres, velhos, jovens, crianças, animais – e até o canto de uma baleia, vindo das profundezas abissais do mar, na praia próxima – responderam:

– Roubaram meu livro!

Casmurro, mais casmurro do que nunca, coçou a cabeça e falou baixinho para si:

– O meu também.

Assustado com a barulheira e parecendo perdidos em meio à multidão, um pequeno grupo formado por dois irmãos abandonados, três pequenos porcos rosados e um bonequinho de madeira, refugiava-se junto a uma reentrância de rocha.

O médico presente acercou-se deles tentando acalmá-los. No entanto, os pequenos ficaram ainda mais horrorizados ao perceberem, bem lá no fundo de seu olhar estagnado, algo maligno, como se aquele senhor de semblante sereno abrigasse em seu peito alguma espécie de monstro.

– Calma, miudinhos, não precisam ter medo – falou uma menina com o dom de domar pesadelos

– É verdade, este é apenas um dos tantos mistérios em nossa volta – concordou, serena, uma mulher capaz de travar amizade com fantasmas, complementando – Neste mundo existem vidas que ninguém vê, mas nem por isso são ameaçadoras.

Viperina, a princesa da língua bifurcada sibilou:

– Esssssassss aí penssssam que ssssabem tudo.

Mas Dom Casmurro cortou a ameaça de discussão:

– Vamos procurar nossos livros, nem que seja preciso fazer uma viagem ao centro da terra.

Nesse momento uma voz baixa, porém firme emergiu sabe-se lá de onde.

– Para que tanta trabalheira?

Todos buscaram o dono daquela voz. E ali estava ele: um moço com um morto pendurado às costas.

– Cruzes, que coisa mais mórbida! Horrorizou-se uma das tantas princesas presentes.

– Por quê? Tornou o jovem – A morte faz parte da vida. E a vida é uma história e cada história é um livro. Portanto, podem nos roubar os livros, mas não podem roubar nossas histórias. Cada um de nós é um livro.


Texto da jornalista Rosina Duarte, inspirado nas leituras dos alunos de todas as etapas no primeiro semestre de 2017.

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